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Foi um governo que, “simplesmente”, retirou o país do chamado “Mapa da Fome” (ONU). Ainda durante esse governo, o Índice de Desenvolvimento Humano – IDH aumentou de 0,649 (anos 2000) para 0,755 em 2016, 5 milhões de brasileiros saíram da situação de pobreza extrema (ONU), as desigualdades sociais sofreram significativa redução — o indicador GINI, que mede desigualdade de renda, passou de 58,6 para 45,9 em 2014 (ONU) —, houve destacado aumento do nível de escolaridade (ONU), o país chegou a alcançar a posição de 6ª economia mundial (em 2002 ocupava apenas o 13º lugar) e criou, propiciou e estimulou inéditas ferramentas, políticas e legais, de combate à corrupção. Havia plena percepção de que se vivia em um país, enfim, verdadeiramente democrático (considerados os pilares de uma democracia capitalista). O respeito internacional, inédito, era sem esforço verificado. Os governos, que para seus adversários (e papagaios) “quebrou o país”, deixou reservas internacionais que alçam o país à 10ª posição entre as maiores do mundo (pra se ter uma ideia, em 2002 era de 37 bilhões de dólares, enquanto em 2018 é de 382 bilhões de dólares).

Eis um brevíssimo e extremamente apertado resumo das conquistas dos governos do país entre 2003 e 2016, embora não se possa desconsiderar que se os últimos dois anos do governo Dilma (pré-golpe, 2015/2016) foram prenhes de erros e desacertos na política econômica (vide a nomeação de Joaquim Levy para o Ministério da Fazenda, quando o país voltou à recessão e perdeu o grau de investimento), foram também os anos das pautas-bomba de Eduardo Cunha, apoiado por um congresso de maioria inqualificável, do massacre midiático diuturno… e do “processo” de impeachment, eufemismo para a derrocada de seu governo por um golpe capitaneado pelo rentismo internacional, e levado a cabo por seus tenentes, sargentos e soldados- rasos sem farda: a grande mídia (Globo à frente), a maioria corrupta do parlamento, parcela do Judiciário —STF na vanguarda, porque não fosse sua omissão, ou apoio disfarçado ou escancarado em certos casos, não existiriam, por exemplo, as imparcialidades do cabo de 1ª instância (é de ver-se, e apurar-se o que disse um certo Tacla Duran, em depoimento recente à Comissão de Direitos Humanos da Câmara, estranhamente não repercutido pela mídia hegemônica golpista) — e significativo contingente da população brasileira, sob a orientação e liderança de seus líderes: MBL, Vem pra Rua, entre outros.

A propósito, essa população teve destacado papel na linha de frente do combate desencadeado para derrubar a então presidenta Dilma. Desempenhou com maestria o papel de exército de soldados-rasos, como tais postos na linha de frente do combate, verdadeiros fantoches dos interesses dos generais rentistas e seus coronéis, tenentes, sargentos e cabos de paletó e gravata. A cada chamamento de seus próceres, acudiam às ruas reclamando desde o “fim da corrupção” — o que se daria inicialmente, diziam, com a derrocada daquele governo e extirpação do seu principal partido — à intervenção militar, passando pelas seguidas ofensas (impublicáveis) à então presidenta. Era irrelevante a ausência escancarada (e demonstrada, e provada) da prática de “crime de responsabilidade” por parte dela (aliás, Dilma está, com rara justiça hoje em dia, livre, leve e solta pedalando pelas ruas de Porto Alegre, Belo Horizonte e Brasília, e à frente nas pesquisas para o Senado em MG, inocente da prática de qualquer ato ilícito em seu governo). A irracionalidade —precursora e explicadora da intolerância, do ódio, do fascismo, da misoginia e do preconceito que
demonstravam contra ela e seu antecessor, e a seu partido político, e às esquerdas em geral — tornava-a aparentemente cega, ou apenas arredia, a qualquer dado concreto que lhe pudesse aclarar a visão e, principalmente, amornar-lhe a alma conturbada.

Talvez porque, por outras razões diversas das dos generais sem-farda propositadamente invisíveis que a manipulava via de seus serviçais, cúmplices ou covardes, também não aguentava mais as sucessivas reduções das desigualdades sociais que antes confortavelmente (para ela) a separava do pobre e do miserável (e a fazia imaginar-se, coitada, como se a elite econômica integrasse). Talvez porque de fato preconceituosa, fascista, racista, machista e misógina em sua essência escravocrata. Talvez porque, analfabeta política e desconhecedora da história do seu país (mais ainda, do mundo) fora mesmo ingenuamente manipulada pelo massacre midiático diário pela grande imprensa hegemônica brasileira. Talvez por cada razão, individualmente; talvez por todas. Afinal, passada aquela etapa do golpe (derrubá-la era só uma batalha a ser vencida), hoje a corrupção está aí, à sua frente, ofensiva, ostensiva e ineditamente atrevida, alheia aos seus outrora massivos desfiles, batuques, panelas e balés verdes-amarelos “cebeefianos”; foi extinta a Controladoria-Geral da União, criada por Lula, e uma das mais importantes ferramentas de combate à corrupção; concursos públicos foram suspensos; diversos ministros do governo são suspeitos da prática de crimes, ou investigados; extinguiu-se 4.000 cargos comissionados e criou-se 14.419 cargos federais; o país está proibido por lei de investir em saúde e educação por 20 anos (PEC 55); o PRÉ-SAL, que antes fora destinado, por iniciativa dos governos Lula e Dilma, integralmente à saúde e educação, está sendo vendido (a preço de banana)— Shell, ExxonMobil, Chevron, BP Energy, Petrogal e Statoil (estatal norueguesa) acabaram de comprar, por módicos R$ 3,15 bilhões de reais, 3 das 4 áreas que foram à venda na 4ª rodada de Partilha de Produção de áreas de exploração do pré-sal (é dever lembrar que o PRÉ-SAL tem valor estimado em mais de 8 trilhões de dólares); sucessivos aumentos dos combustíveis são uma realidade diária (a reação, aqui, dessa mesma outrora “aguerrida” população tão ciosa de seus direitos e seu poder político-popular foi correr aos postos e enfrentar filas, não raro até quilométricas, para abastecer seus veículos com preços hiperinflacionados por empresários desonestos, em contraponto à paralisação dos caminhoneiros); a reforma trabalhista (“modernização” das relações de trabalho, para seus defensores representantes do capital) foi aprovada “goela abaixo” do trabalhador, sem debate e discussão, representando, nas palavras de organismos internacionais, um retrocesso de décadas nas relações de trabalho do país; tentativas foram realizadas, por sorte derrotadas (está-se em ano eleitoral), para aprovação da questionadíssima reforma da previdência (igualmente alheia às manifestações de contrários estudiosos da mesma previdência); o assustador recrudescimento dos ataques dos ruralistas à Amazônia; a economia em frangalhos; aumento brutal da recessão e do desemprego, etc., etc.

E para quem alardeia que as dificuldades de hoje são decorrentes daqueles governos, não custa lembrar que não estamos na situação Argentina — quem não se lembra dos aplausos da grande mídia ao então recém-presidente eleito (neoliberal) argentino? —, decorrência da atual política econômica, graças às reservas internacionais deixadas por Lula e Dilma.

Dessa população, entretanto, só se houve, hoje, o silêncio. Por vergonha, cinismo ou complacência, acabou a indignação.

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