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O Financial Times, conhecido jornal britânico ligado ao capital financeiro mundial, elegeu em dezembro de 2018 o bilionário especulador rentista George Soros personalidade do ano, pelos valores que ele representa. Nada mais coerente para o principal jornal das finanças globais.

De acordo com a matéria, a escolha da personalidade do ano sempre decorre das realizações do eleito, no caso, do bilionário especulador. A seleção ocorre, também, pelos valores que o indicado defende.

Presidente do conselho da Soros Fund Management e da Open Society Foundations, Soros é doador de verbas ao Partido Democrata americano e também às “causas progressistas”, informa o veículo de comunicação das grandes finanças mundiais. Resta saber o que o jornal considera “causas progressistas”.

Na verdade, George Soros ganha fortunas incalculáveis com a especulação financeira mundial a curto prazo, enquanto se agrava a crise econômica das nações e sociedades, e é promotor de um conjunto de ideias programáticas conhecidas como a agenda das Políticas Identitárias.

Cujo mote central tem sido a transmutação das questões nacionais e sociais e portanto dos próprios cidadãos, por uma outra visão, a de que o mundo deve marchar para um conjunto de formulações baseadas nas políticas das afirmações das interioridades dos indivíduos.

Das autoafirmações supremas individuais e de grupos, através de variadas características tais como gênero, raça, sexo, meio ambiente etc., com base nas formulações dos chamados “novos filósofos franceses” que adquiriram notoriedade a partir de Maio de 1968.

Com a desregulamentação radical dos fluxos do capital financeiro e com ele o rentismo predador, Soros transformou-se cada vez mais influente em todos os Países. Tem sido responsabilizado por uma série de desestabilizações em várias nações do planeta.

De uma certa maneira, mesmo que bastante contraditória, existe uma certa semelhança entre a cruzada do megaespeculador financeiro George Soros e as novas concepções neotrotsquistas de uma revolução mundial, só que a de Soros seria através das agendas identitárias, com investimentos bilionários.

A sua fundação Open Society possui sedes em muitas cidades, inclusive em São Paulo, que são visitadas por várias personalidades daquilo que muito cientistas políticos denominam a “Nova Esquerda”, aderente às agendas difundidas por Soros e outros especuladores.

Soros, e vários especuladores rentistas, são adversários implacáveis da questão nacional dos povos e se batem pela mais completa e absoluta liberdade dos fluxos globais do capital financeiro, além de uma cultura mundial que lhes dê sustentação, defesa, e ativismo entusiasta, assim como acadêmico e intelectual. Essas duas questões têm sido a principal cruzada de George Soros.

Com o brutal agravamento das condições de vida das pessoas e sociedades, vítimas das políticas econômicas da globalização financeira, índices pífios de crescimento econômico, quando não negativos, desemprego, aumento da criminalidade, sucateamento dos serviços coletivos, como saúde e educação, salários etc., as populações começaram a se sublevar, como os coletes amarelos em Paris. Insubordinações que possuem caráter reativo, não de plataformas políticas programáticas.

Além disso passaram a votar contra partidos políticos que consideram que não os representam, não importa a matriz ideológica, a cor das suas bandeiras.

Nessa situação, que está em pleno movimento, as Agendas Identitárias que identificam o ideário de várias organizações da Nova Esquerda, mas não exclusivamente delas, passaram a ser referência das políticas econômicas da globalização financeira que as sociedades repudiam.

Emmanuel Macron, presidente da França, eleito por uma coalizão dirigida por banqueiros para por em prática as políticas do capital financeiro, resolveu sobretaxar os combustíveis, que vão finalizar nos preços das mercadorias básicas, sob o argumento que seria um imposto a favor da tese, hegemônica, do aquecimento global.

Respondeu-lhe uma irada senhora dona de casa francesa: não me importa o fim do mundo, quero é saber como chegarei com o meu salário cada vez mais minguado no fim do mês.

A grande mídia hegemônica vem tratando essas manifestações de massas, que devem se estender por grande parte da Europa, como de “extrema direita, fascista ou de nacionalistas populistas” com o objetivo de estigmatizar os levantes sociais.

É óbvio que existam elementos de direita, assim como de esquerda ou anarquistas, nas manifestações.

Porém, negar as causas fundamentais das indignações sociais e não as associar às consequências geradas por décadas às políticas econômicas, financeiras dominantes, e dirigidas ao brutal processo de acumulação do capital financeiro, é um erro fatal de avaliação da realidade.

Esses levantes sociais não estavam no radar das principais organizações políticas, de esquerda, centro ou direita, como queiram se auto intitular. Os repúdios sociais podem acontecer através de manifestações de rua ou pela via eleitoral, como foi o caso do Brasil, caracterizam-se como difusas revoltas contra o sistema. E contra aqueles que estão mais visíveis à sua frente.

O problema é que os partidos políticos, inclusive os ditos representantes das agendas identitárias, da Nova Esquerda, não possuem alternativas políticas ou propostas exequíveis às indignações sociais.

Muitos que se situam no âmbito da Nova Esquerda, tornaram-se por inércia ou incompreensão, em partidos considerados como associados ao sistema repudiado. Ficaram, assim, paradoxalmente, conservadores, identificados ao próprio sistema, mesmo que usem retórica e iconografia de “esquerda”.

Faltam-lhes a compreensão, e buscam justificativas para as suas derrotas fora da realidade objetiva, da irritação social crescente, encontram-se sem perspectivas.

As sociedades não vão consultar os partidos de direita, centro, ou da nova esquerda, ou ao “petit roi” o “reizinho dos financistas” Emmanuel Macron, como diz a mídia francesa, e seja lá quem for, para saber se eles concordam ou não com as suas insubordinações.

Porque é exatamente o contrário, as forças políticas é que devem ter a lucidez de compreender as revoltas das sociedades agoniadas com as suas péssimas condições de vida. E aliás, por que deveria ser mesmo o contrário?

As sociedades estão igualmente defendendo sua cultura, valores, percebem, ao seu jeito, que a nação é para elas um bem valioso que deve ser preservado, em detrimento de qualquer pseudointernacionalismo da globalização financeira, que só lhes tem causado danos e prejuízos. Isso é um fato e uma constatação.

À sua maneira, passam a defender a centralidade da importância da Nação em suas reinvindicações essenciais. Podem inclusive eleger figuras “toscas”, “místicas”, reacionárias, “fascistas” que se apresentem como favoráveis às suas reinvindicações, às causas das suas revoltas.

As sociedades também não podem ser responsabilizadas pelos equívocos políticos táticos dos chamados setores progressistas. E por que deveriam? Nem estão preocupadas com isso.

É evidente que se o “toscos”, os “reacionários”, como dizem no Brasil de Bolsonaro, não corresponderem aos seus reclamos, será repudiado nas urnas ou nas ruas, em algum momento mais adiante. Isso é um comportamento da História social dos povos.

Que o diga Macron: promoveu o Eco Imposto sobre os combustíveis contra o aquecimento global e teve como resposta o aquecimento político enfurecido da sociedade francesa.

Eduardo Bomfim
Eduardo Bomfim
Alagoano de Maceió, advogado, foi Deputado Estadual de Alagoas (83-86), Deputado Federal Constituinte (87-91), Vereador de Maceió (93-96 e 99). Desenvolveu funções de governo como Secretário de Cultura na Prefeitura de Maceió (97-98 e 2009-2010) e no Governo de Alagoas (2003 e 2005-2006), foi Secretário Adjunto da Secretaria de Coordenação Política e Assuntos Institucionais da Presidência da República do Brasil (2004-2005). É dirigente histórico do Partido Comunista do Brasil.

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